• Inês Tavares

Ao coração de quem pensa em desistir (II) – As pedras do seu caminho



Já digeriu o “comer bem para sempre” ?! (Leia a primeira parte deste artigo aqui.) Vamos então falar nos obstáculos do seu caminho.


Cada pessoa que conhecemos deixa uma parte de si e leva uma parte de nós. A pessoa e profissional que sou deve-se em grande parte às pessoas que nestes 10 anos conheci e tratei. Consigo a esta distância compilar as maiores dificuldades que se repetem ao longo do tempo e que dificultam muitíssimo a já árdua tarefa de mudar definitivamente os hábitos alimentares. Só compreendendo o que falha conseguimos ultrapassar esses mesmos obstáculos.


É necessário referir que não sou nem serei uma profissional perfeita e que cada paciente tem o direito de não gostar da minha abordagem/estilo. Apesar de basear a minha consulta na educação alimentar, de prescrever um plano equilibrado e completo, com maior ou menor restrição consoante as necessidades/objectivos e personalizar totalmente o mesmo às preferências e hábitos de quem me procura, não estou isenta da minha culpa na dificuldade de cumprimento do plano alimentar. Estabeleço uma relação próxima aos meus pacientes, estando disponível para trocar impressões entre consultas e reformular o plano quando os mesmos sentem que este não é adequado. Ainda assim, aceito que o motivo das dificuldades seja eu e o plano por mim prescrito!


Quanto ao que de mim não depende, consigo enumerar os 10 grandes obstáculos de quem quer emagrecer:

1) A insatisfação com a vida, a ansiedade e a culpa.

Não são a mesma coisa mas podem coexistir e estão interligadas. Pergunto com frequência se quem me procura sabe distinguir quando tem fome e quando tem vontade de comer. A sensação de vazio, a tristeza, a ansiedade ou depressão, o descontentamento com o próprio corpo, as dificuldades financeiras, matrimoniais, laborais, tudo pode ser canalizado para o prazer que é comer. Muitas vezes quem me procura não sabe dizer porque sente insatisfação. É algo similar a um vazio por preencher, falta alguma coisa - prazer, paz, felicidade, dinheiro, amor-próprio ou tudo junto - mas no momento em quem ataca o prato ou aquele chocolate, esse prazer efémero preenche o vazio contínuo que domina a sua vida e, pelo menos durante algum tempo (pouco!), sente-se saciado (a). Depois vem culpa. Sabia que não o devia ter feito e sente-se pior por não conseguir controlar-se a si próprio (a). Este ciclo vicioso é muito preocupante em pessoas com baixa auto-estima, ansiedade crónica e em depressão. Sair dele requer força de vontade, auto-controlo e muitas vezes apoio psicológico especializado e medicação.


2) Privação do sono.

“ - Dorme bem?” Não consigo quantificar exactamente a percentagem de pessoas que responde “Não”, mas asseguro-lhe quem é mais 50%! Trabalhar por turnos, ansiedade e insónia, dor crónica, muitos podem ser os motivos que levam tantas pessoas a dormir mal. Dormir 3 ou 4h por noite durante anos produz inúmeros danos à saúde mesmo que “já esteja habituado”! Este tema é vasto e complexo, mas a questão do sono é muitíssimo pertinente em quem pretende emagrecer. Dormir bem é essencial a saúde psicológica e física. A sensação de cansaço constante e a ansiedade são apenas algumas das consequências que podem influenciar directamente o seu apetite, motivação e força de vontade, assim como a sua atitude para com a comida. Novamente pode ser necessário apoio especializado e medicação adequada. Técnicas de relaxamento e o exercício físico em geral ajudam a dormir melhor.


3) Falta de apoio do cônjuge e de outros familiares.

Há algum tempo atrás conheci uma jovem com obesidade mas com muita vontade em mudar de hábitos. Trabalhava mas não era independente financeiramente. Vivia com os pais e estes não só não apoiavam a sua decisão, como ignoravam o seu esforço em alimentar-se melhor. A alimentação da família era totalmente desequilibrada e disfuncional (ela não era obesa por acaso!), e sozinha na sua luta, acabou por desistir. Cada vez que a vejo lembro-me do caso e sinto-me triste por não ter conseguido fazer mais por si.


Na consulta falo de muito mais que nutrição. Tento ser digna da confiança que os meus pacientes depositam em mim quando partilham experiências e até confidências. É graças a isso que consigo estar a escrever este artigo na esperança de ajudar quem esteja a passar momentos difíceis. Nestas conversas, há um tema demasiado recorrente por parte das pacientes do sexo feminino – a falta de apoio do marido/companheiro. Sim vivemos no século XXI, no entanto as responsabilidades domésticas e parentais estão longe de ser divididas de forma equitativa. A falta de apoio traduz-se em pouca compreensão à hora da refeição, desdém pela comida por ela confeccionada quando a única pessoa que cozinha é maioritariamente a mulher, sobrecarga doméstica e com os filhos sem tempo para si e para o exercício físico, desincentivo no cumprimento do plano porque já tentou 20x e desistiu, etc.


Recordo uma mãe que raramente jantava porque os filhos bebés necessitavam de atenção e cuidados constantes, e a essa hora estava sozinha porque o marido ia jogar futebol todos os dias à hora do jantar…


Não me compete tecer juízos de valor sobre o seu companheiro e respectiva atitude (escolheu-o por algum motivo!) e muito menos incentivar brigas domésticas. Não demonizo o sexo masculino nem aprecio generalizações. Ainda assim sou mulher! Mesmo sabendo que as minhas palavras não vão mudar grande coisa para muitas mulheres, acho que um marido serve para dividir a cama e a vida, e portanto, a principal pessoa que a devia apoiar neste caminho, dividindo responsabilidades, dificuldades, ambições, metas e conquistas é a pessoa que escolheu para ter ao seu lado. De modo conciliatório e ponderado, lute pelo direito a sentir-me melhor, a ter mais saúde e qualidade de vida. Não é uma “sorte”, é um direito seu.


4) A “síndrome da mãe abnegada”!

Por vezes anda de mãos dadas com o item anterior! A mãe que corre de actividade em actividade dos filhos mas não tem tempo de caminhar, que cozinha o que os filhos gostam mas não o faz para si, que se põe sistematicamente de parte em prol dos filhos. Temos filhos por um motivo: eles são o melhor do mundo! Precisam que os amemos e que sejamos efectivamente pais deles, isto é, pais presentes! Conciliar tudo é uma ginástica brutal e significa viver em cima do arame, tentando equilibrar todas as áreas vida!


Quando essa responsabilidade recai maioritariamente sobre a mãe, e é ela que consecutivamente abdica de si, do que gosta, do que precisa, sem qualquer apoio familiar, mas principalmente do cônjuge, tem um enorme problema entre mãos! Isto quando há marido. Há mães que o são sozinhas! Repense se acto de abdicar de si consecutivamente não trará mais custos que benefícios para eles e para si a médio/longo prazo.


E aproveite uma coisa maravilhosa chamada "avós"! Os avós são absolutamente loucos pelos netos e desejam avidamente ficar com eles, fazer actividades, brincar, mimar, fazê-los felizes! Se estão com pessoas que os amam, que cuidam e que fazem tudo por eles, confie e vá cuidar um pouco de si!


5) Baixa auto-estima e derrotismo.

Metade deste processo é motivação e força de vontade. Para que a mudança seja verdadeira e a longo prazo é necessária perseverança. Infelizmente, conheço demasiadas pessoas que na primeira consulta já estão derrotadas. Normalmente têm uma auto-estima “abaixo de cão” (perdoe-me!), sofreram bullying, odeiam o próprio corpo ou não se reconhecem nele, têm um trabalho pesado e cheio de responsabilidades, a sua relação passa por provações ou estão a divorciar-se, vivem frequentemente momentos de crise e viragem na vida. Não se sentem amadas, mas sobretudo não se amam. Não gostam de si mesmas e acham que não serão capazes. Muitas já tentaram emagrecer várias vezes e falharam.


Não sou psicóloga e o meu apoio motivacional tem um âmbito específico que é insuficiente em muitos casos. Procure apoio psicológico e trabalhe o seu amor-próprio e a sua motivação. É essencial que tenha força para enfrentar todas as dificuldades que este processo acarreta.


6) Postergar a próxima consulta.

“ - Já sei o que comer mas cumpri pouco este mês, vou adiar a próxima consulta e portar-me bem nas próximas semanas!” A experiência diz-me que apesar de ser verdade para algumas pessoas, a maioria perde-se! Na consulta de nutrição estabelece-se uma relação de confiança e compromisso com o nutricionista. Com uma periocidade mais ou menos constante, quem cumpre um plano alimentar compromete-se a mostrar resultados no dia da consulta. Muitas vezes trabalha para uma data e a aproximação da mesma ajuda a disciplinar-se! Quando vai à consulta, entre os ajustes ao plano, o esclarecimento de dúvidas, as “repreensões” e os “aplausos”, há um trabalho motivacional que é feito por mim! Pelo menos nos primeiros tempos, as minhas palavras estarão frescas na sua cabeça.

Quando posterga repetidamente a consulta há uma tendência a descurar o cumprimento do plano porque não há uma data definida para me mostrar que conseguiu. “ – Tenho tempo!”, “ – Amanhã corre melhor…”, só que não corre! Se há pessoas com imensa capacidade em se auto disciplinarem, a maioria precisa de alguém que cumpra esse papel pelo menos nos primeiros tempos.


7) Não comer a “comida da família”.

Cozinhar só para si sistematicamente é um passo até ao fracasso. Recordo que o processo dura semanas ou meses! Deve sentar-se à mesa e comer com pais, marido/mulher ou filhos. Como referi no artigo anterior (aqui), comer é um acto familiar e social. Somos mais felizes à mesa com as pessoas que mais gostamos. Toda a família deve comer a mesma refeição e esta deve ser rica nutricionalmente, equilibrada e adequada a si e a eles.


Neste item há sempre muita controvérsia... Os seus familiares não estão de “dieta” e podem manifestar desagrado em comer a mesma refeição. É por esse motivo que incentivo que confeccione refeições familiares equilibradas de modo a facilitar a gestão de tempo em detrimento da comida clássica de "dieta” : Cozidos e grelhados! Opte por refeições práticas: frango estufado, pargo assado, etc… Vai confeccionar estes pratos de modo simples e saboroso, sendo muito moderado no uso do azeite e toda a família ficará feliz! É claro que excepcionalmente pode confeccionar algo só para si quando o prato for manifestamente desadequado, mas fazê-lo por sistema acarreta uma disponibilidade que não é passível de cumprir a longo prazo. O plano alimentar pode durar uns meses mas comer bem deve ser para a vida. Aprenda simplesmente a comer e nunca mais fará "dieta".


8) Não saber o que cozinhar, a monotonia e a saturação dos mesmos pratos.

O item anterior tem implícita uma dúvida: O que cozinhar?! Para imensas pessoas esta é a maior dificuldade! Uma parte não sabe cozinhar de todo, baseando a sua alimentação em douradinhos, panadinhos, rissóis, lasanhas e tudo o que seja pré-confeccionado! A outra parte não sabe cozinhar moderando a gordura, principalmente o azeite! Quando inicia este processo, pode cair no erro de só comer “cozidos e grelhados”, ingerindo sistematicamente os mesmos pratos com a mesma salada durante semanas! A monotonia terá um elevadíssimo custo, conduzindo-o inevitavelmente à saturação e à desistência.


Não é por acaso que baseio a minha abordagem clínica na (Re) Educação Alimentar. Este processo implica uma aprendizagem a vários níveis, incluindo cozinhar. Experimentar novos pratos, novos alimentos, sabores e sobretudo, retirando prazer em comer bem.


9) A falta de planeamento.

A outra metade do processo é planear! O que compra, o que vai cozinhar, os lanches e as refeições dentro e fora do lar. Faça listas de compras e organize a sua semana ou no mínimo o dia seguinte: refeições principais e lanches. Se passa muito tempo fora de casa, esta recomendação ainda é mais importante. Faça merendas e marmitas e leve consigo o que vai comer ao longo do dia. Além de muito mais barato, sabe exactamente o que vai comer. Quando não planeia, há a elevada probabilidade de não comer qualquer alimento ou de comer uma má opção.


10) O tempo

“ - Não tenho tempo!”

Tem tempo para subir as escadas sem se cansar?! Tem tempo para a diabetes, hipertensão, hipercolesterolémia, esteatose hepática, roncopatia e apneia do sono…?! Tem tempo para um enfarte do miocárdio ou um AVC?!

Este artigo vai longo, mas quero dizer-lhe que é preciso que invista tempo em si. Tempo para fazer menus, listas de compras, para procurar novas receitas, para cozinhar, para planear merendas e marmitas, para caminhar ou para ir ao ginásio. Este tempo não é gasto nem perdido! É ganho e é para si! É um investimento a longo prazo na sua saúde e qualidade de vida, apenas e só, porque merece. Reveja prioridades, organize-se, peça ajuda e mude.



Termino dizendo-lhe que apesar de todos os obstáculos exteriores, maior pedra do seu caminho é você mesmo. Pense nisso.

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