• Inês Tavares

Bebidas vegetais (“Leites vegetais”) – A comida não é só energia



Há mil e um artigos sobre leite! Uma parte enaltece de forma acérrima o seu consumo, a outra parte condena-o cegamente. Este artigo não é sobre leite mas sim sobre o que é apresentado como possível alternativa ao leite: as Bebidas vegetais.


O termo “leite” não pode de modo algum ser aplicado a uma bebida vegetal. Leite é uma secreção produzida pelas glândulas mamárias de mamíferos fêmeas. A sua composição é única e inimitável. A designação “leite vegetal” surgiu há muitos anos no contexto do lançamento de um novo produto alimentar – a bebida de soja. Pretendia-se que este novo produto fosse uma alternativa ao leite, deste modo a indústria da época chegava ao público vegetariano e a todos os que por algum motivo não o bebiam. Apresentado como alternativa, foi desenvolvido e aperfeiçoado para que do ponto de vista do consumidor fosse semelhante a leite: cor branca, alimento proteico e fonte de cálcio (ainda que de forma artificial).


A corrente anti-leite não é recente, mas cresce em Portugal e no Mundo quase paralelamente ao surgimento de outras opções alimentares como a Dieta do Paleolítico entre outras. De opções alimentares a “modas” num curto espaço de tempo, o número de pessoas que começa a excluir o leite da sua alimentação é considerável, pelo que a industria alimentar, sempre atenta à evolução das tendências de consumo, vê nesta opção uma oportunidade de mercado cada vez mais significativa, apostando fortemente nas bebidas vegetais. Desde então, surgiram outros “leites” como a bebida de arroz, de amêndoa ou de aveia.


Nas bebidas vegetais, como em muitos outros alimentos, o marketing teve um papel preponderante no sucesso e na aceitação de novos produtos. Estas alternativas vegetais são apresentadas como substituto “saudável” ao leite, embalagem semelhante, elevado teor em cálcio e para determinados públicos, até como opção “mais saudável” que o leite de vaca. Certas alegações e considerações são disseminadas pela Internet, pelas redes sociais e mais recentemente, pelos os grupos virtuais de entreajuda e partilha de conhecimentos, que podem ser uma mais valia com informação muito relevante e fidedigna ou simplesmente um poço de falsa ciência.


Recentemente a nutricionista Conceição Calhau falou à MAGG sobre o consumo de bebidas vegetais (num artigo que aconselho a ler) em que resume de forma muito simples o que é este produto. “Da mesma maneira que temos um sumo à base de fruta, aqui temos uma bebida à base de um cereal, leguminosa ou oleaginosa. (…) Olhando para o rótulo percebemos que, no fundo, se trata de uma bebida altamente superficial, de um preparado, de um cocktail que poderá ser mais ou menos nutricionalmente equilibrado.”


A ideia de que uma bebida vegetal é um “sumo” é a forma mais simples de a caracterizar. É uma mistura industrial, mais ou menos equilibrada, mais ou menos fortificada em nutrientes. Vivemos tempos em que o que é “natural” e não processado é quase sagrado, mas curiosamente actual veia naturalista é quase omissa no consumo de um alimento completamente artificial! A comparação do leite com uma bebida vegetal é tão absurda quanto a comparação com um refrigerante. São alimentos completamente distintos do ponto de vista nutricional e até da engenharia alimentar.


Lendo a lista de ingredientes típica de destes produtos verá algo semelhante a:


Água , Açúcar, AMÊNDOA (2,5 %), Fosfato tricálcico, Sal, Estabilizadores (Goma guar, Goma xantana, Carragenina), Emulsionante (Lecitina de girassol), Vitaminas (B2, B12, D2 e E), Pirofosfato férrico e Aromas.”


Esta bebida tem 2,5% de amêndoa, tal como um refrigerante tem cerca de 5 a 7% de sumo de fruta. O açúcar vem em segundo lugar na lista de ingredientes, o que significa que é o segundo constituinte em maior quantidade no produto, neste caso é até superior à quantidade de amêndoa.


É necessário referir que há de facto pessoas que não podem beber leite ou que beneficiam de uma redução significativa do seu consumo, são eles (maioritariamente!) os indivíduos alérgicos à proteína do leite de vaca (diferente de intolerantes à lactose) e de forma muito genérica quem possui patologia intestinal (depende!). O leite pode ter uma digestibilidade mais difícil, principalmente nos intolerantes à lactose e é ainda um alimento de potencial inflamatório relevante para algumas patologias. Muitas pessoas dificilmente conseguem substituir leite por chá, café ou sumos naturais em momentos específicos do dia, pelo que percebo que as bebidas vegetais possam nestes casos ser uma opção na substituição do leite.


Defendo escolhas informadas, por esse motivo e apesar de não incentivar o consumo de bebidas vegetais, acho importante que o consumidor conheça a constituição deste produto. Se consome uma bebida vegetal, devo dizer-lhe que o teor em proteína de “leites” de arroz, amêndoa ou aveia é mínimo e que estes produtos são basicamente água com açúcar. A bebida de soja é a única bebida vegetal com um teor proteico próximo ao leite de vaca. Se optar por esta bebida, consulte o teor em açúcar na tabela nutricional. Este deve ser inferior a 3 g por 100 ml de produto.


Quanto ao teor em cálcio, é importante se situe nos 120 mg de cálcio por 100 ml de produto. Apesar de não haver evidência que o cálcio adicionado artificialmente tenha a mesma biodisponibilidade que o cálcio naturalmente presente nos alimentos, isto é, que seja absorvido do mesmo modo, pelo menos e de forma aparente (???), fornecerá ao seu organismo a mesma quantidade de cálcio presente no leite de vaca (reforço que carece de prova!).


Tenha ainda presente que a bebida de soja por mais aperfeiçoada que seja, não é nem será leite. Se não há alergia ou verdadeira patologia que justifique a exclusão do leite da dieta, beba-o e consuma os seus derivados diariamente e segundo a recomendação da Roda dos Alimentos (2 a 3 porções por dia). Os lácteos são fontes “fáceis” de cálcio, de proteína de alto valor biológico e de indiscutível riqueza nutricional. Se é intolerante é lactose, tem à disposição inúmeros leites sem lactose a preço muito competitivo que podem ser uma opção.





(Imagem via Pinterest).

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