• Inês Tavares

O auto-engano do “inchaço”, os drenantes, o metabolismo e outras ilusões



Na consulta de nutrição clínica dedicada ao excesso de peso e obesidade, existem dois tipos de pessoas que me procuram: as que já sabem tudo o que lhes vou dizer mas precisam de um profissional que use a sua “autoridade” para as motivar e fazer com que se comprometam no processo de perda de peso, e as que vivem na ilusão. As ilusões têm a sua génese em informação duvidosa disseminada por toda a parte (a Internet tem grande responsabilidade nisto!), alimentada por alguma indústria “saudável” e farmacêutica que através de elaboradíssimas estratégias de marketing cria nas pessoas necessidades que elas não têm, e no pior dos monstros: o AUTO-ENGANO!


Toda a gente tem (ou deve ter) espírito crítico, isto é, capacidade de pensar por si, de colocar uma ideia em causa e de discordar de algo que lhe é apresentado como verdade absoluta. Se é verdade que a maioria das pessoas não tem bases em fisiologia ou bioquímica para compreender determinados conceitos, também é verdade que só vemos o que queremos ver e a realidade é muitas vezes desagradável.


Considero-me uma profissional de saúde honesta e competente, pelo que me distancio de qualquer forma de sensacionalismo, desinformação e publicidade enganosa. A minha missão na consulta é ser transparente, explicar-lhe por A mais B os “comos” e os “porquês”, não posso de modo algum corroborar com mitos e falsas ilusões. Isto é verdadeira (Re) Educação Alimentar, processo central na mudança de hábitos e estilos de vida.


De entre toda a falsa informação que me chega e que diariamente esclareço, as frases mais frequentes são:


- “Até a água me engorda…”

- “Quero emagrecer só na barriga.”

- “A minha genética é terrível!”

- “O meu metabolismo é lento.”

- “Estou muito inchada”.

- “Faço muita retenção de líquidos”.

- “Estou a tomar um drenante para perder volume/emagrecer!”.


1) A água não engorda e também não emagrece! A água tem 0 kcal, ou seja, valor energético nulo. Deve beber água de modo a manter o equilíbrio hídrico e electrolítico do seu organismo, de forma a não sobrecarregar o funcionamento renal e eventualmente ajudar no controlo da saciedade. Beba a água que quiser, quando quiser!


2) Quanto ao emagrecimento apenas num local, (barriga, pernas, glúteos…) devo dizer-lhe que é impossível! O cirurgião plástico é o único profissional de saúde que consegue retirar gordura localizada. Quando emagrecer será no todo e não apenas num local específico: pernas, braços, tronco, peito, barriga e até na cara. Naturalmente que se tem mais gordura acumulada na zona abdominal, também perderá mais volume nesse local. Nestes casos o fortalecimento muscular é muitíssimo importante, pelo que deve cumprir um plano de treino personalizado e elaborado por um profissional habilitado.


3) Há de facto uma componente genética no excesso de peso e obesidade, mas está longe de ser devidamente conhecida e explicada. Independentemente do modo como a expressão genética actua no ganho e na perda de peso, o que mais influencia o número que vê na balança é a sua forma de comer e o seu (possível) sedentarismo. Não culpe a genética se faz más escolhas alimentares e passa o dia sentado (a).


4) Parte do que disse anteriormente, também que aplica ao metabolismo. “Metabolismo lento” é basicamente uma redução das necessidades energéticas. As mesmas variam consoante o sexo, altura, idade e actividade física. Homens gastam mais energia em repouso que mulheres e pessoas altas têm maiores necessidades energéticas que pessoas baixas. Ingratamente (!), à medida que a idade avança também há uma diminuição da energia necessária diariamente. Se é uma mulher sedentária de 1,50 m de altura com 55 anos, não pode esperar ter as necessidades energéticas de um homem desportista de 25 anos e 1,80 m. As únicas pessoas que podem culpar o metabolismo pelo ganho de peso são doentes com hipotiroidismo.


5) Sobre o já clássico eufemismo de “estar muito inchada”, digo com algum humor que inchaço são gases! Como já referi em outras oportunidades, salvo patologia intestinal e disbiose, hipertensão arterial e edema dos membros inferiores, não está “inchado (a)”, não faz retenção de líquidos e consequentemente não precisa de tomar nenhum drenante. Seja um chá ou um cocktail de substâncias em xarope vendido a preço de ouro, nenhum drenante emagrece. Em primeiro lugar porque o volume que tem a mais não é água, é gordura. Em segundo lugar porque não se elimina gordura na urina. A urina é um meio aquoso e serve apenas à excreção de substâncias hidrossolúveis, isto é, solúveis em água. “Água e azeite não se misturam”, lembra-se?


6) O drenante é rico em diuréticos levando a uma diminuição da quantidade de água corporal. Quando sobe à balança há uma variação de peso porque perdeu água, não porque perdeu massa gorda. É uma ilusão pensar que um drenante emagrece. Emagrecer significa perder gordura, não água! Consumido em excesso leva a que ande sistematicamente desidratado (a). Por norma, os drenantes têm cafeína ou constituintes que a contêm, por isso agravam estados de ansiedade e insónia. Não tome drenantes na expectativa de emagrecer, porque isso não vai acontecer. Emagrecerá se ingerir menos energia do que aquela que necessita para o peso actual e/ou se aumentar o gasto energético através da actividade física.


É perfeitamente possível actuar no alívio de determinada sintomatologia intestinal, mas não é essa a causa do seu excesso de peso/volume. Se tem a tensão alta e/ou pernas inchadas consulte o seu médico para avaliação/ prescrição de medicação adequada.


Pensar que está inchado, culpar a genética ou o metabolismo é simplesmente auto-engano! Nestas e em outras ilusões, há pessoas que não estão preparadas para a verdade, porque implica “olhar para dentro” e pôr-se em causa. As ilusões e o auto-engano são extraordinariamente mais confortáveis do que as minhas duras verdades. Em muitas situações, compete-me dizer-lhe claramente uma coisa: Está gordo (a). Há um tabu imenso em dizer a palavra gordo! Até a mim me custa dizê-lo porque tenho consciência do quanto fere, substituindo por “ tem excesso de peso”, “ está obeso (a)”, mas de forma nua e crua é o que significa.


Não, não é a genética. Não, não é metabolismo lento. Não, não é inchaço, excesso “líquidos” ou água. É excesso de massa gorda. Sim, é gordura. São anos de erros alimentares e sedentarismo. A ideia de que todo ou parte do seu volume é água, é o pináculo do auto-engano! Pensar que o peso que tem a mais é retenção de líquidos é um processo psicológico criado por si mesmo como forma de desculpabilizar a sua atitude para com a comida e incentivado por quem quer que compre drenantes. O mesmo se aplica à culpabilização da genética e do metabolismo.


Aceitar isto é à primeira vista simples, quase óbvio, mas pode ser terrivelmente duro para alguém com baixa auto-estima, complexos de muitos anos e às vezes em depressão. Acredite que o (a) compreendo (a). Tento fazê-lo de forma a minimizar o “par de estalos” que é esta informação, mas sei o quanto é difícil.


Faça uma auto-crítica, pense bem no que come sabendo à partida que é errado. Pense nos seus horários, no estilo de vida que leva, na sua motivação ou falta dela. Esqueça a amiga que come tudo e não engorda, pense só em si e na sua atitude! É certo que todas as pessoas são diferentes e tenho isso em conta na análise global que faço em consulta, mas não culpe o metabolismo nem o universo inteiro pelo seu excesso de peso, pois estará a retardar todo o processo. Aceite e siga em frente cheio de motivação e força de vontade. O nutricionista vai ajuda-lo neste processo, munindo-o dos conhecimentos necessários para fazer melhores escolhas, mas ninguém, absolutamente ninguém caminhará por si.

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