• Inês Tavares

Obesidade e excesso de peso infantil: quando tapamos o sol com a peneira



Segundo dados do COSI (Childhood Obesity Surveillance Initiative) a prevalência de excesso de peso e obesidade infantil diminuíram em Portugal de 37,9% em 2008 para 29,6% em 2019. Os resultados são francamente animadores mas estão longe de satisfazerem. 40% dos adolescentes portugueses bebe refrigerantes diariamente e mais de metade não consome fruta e legumes na quantidade certa. Muito há ainda por fazer na prevenção e tratamento da obesidade infantil.


É tremendamente desafiador acompanhar uma criança com excesso de peso e principalmente com obesidade. Como nutricionista, compete-me sensibilizar pais e educadores para os sistemáticos erros alimentares cometidos diariamente apesar de toda a informação existente e para as falsas ideias enraizadas na cultura popular.


A ideia que o excesso de peso "passa" com a idade é simultâneamente a ideia mais comum e mais perigosa nos pais e educadores pois posterga o problema na expectativa que o tempo o resolva. Não, o excesso de peso e a obesidade da criança/adolescente não "passam" com a idade. Tendencialmente crianças obesas serão adultos obesos porque os erros alimentares tendem a manter-se ou agravar-se assim como o sedentarismo. Se não houver uma intervenção directa, o crescimento por si só não vai resolver o problema. O crescimento pode "diluir" o excesso de peso, apenas se houver uma adequação da ingestão alimentar da criança/adolescente em função da sua actividade física. Deve aliás aproveitar a "ajuda" do crescimento para actuar. Postergar o problema não só não o resolve, como torna a situação mais difícil de ser intervencionada.


Como agravante, a obesidade infantil é uma doença sub-diagnosticada em muitos casos! O pediatra sabe, o médico de família sabe, por vezes os pais também sabem, e não há uma acção directa e eficaz junto da criança. Há uma espécie de tabu, pacto mudo ou simples auto-engano. "Não é uma doença." (É SIM!) "Não é grave." (É sim!) "Talvez desapareça.", "Ele vai crescer.", "Não se fala nisso para não o magoar", esquecendo que a criança tem perfeita consciência do próprio corpo. Os próprios profissionais de saúde podem sentir que as suas palavras caem em saco roto quando os pais estão pouco sensibilizados para a questão ou não querem ver o problema.


Persiste ainda o hábito de tornar a alimentação uma recompensa ou castigo, "se te portares bem dou-te um doce", "se te portares mal não comes sobremesa." Não considero grave que se assinale um momento especial ou feliz com um determinado alimento se essa recompensa for mesmo esporádica. Se a comida for usada frequentemente como factor de persuasão ou manipulação, a criança pode ganhar o hábito de só obedecer a troco de determinados alimentos. Isto é particularmente grave se a criança tiver excesso de peso ou obesidade. Os pais correm o risco de passarem de manipuladores a manipulados pois é fácil escorregar neste tipo de chantagem.


Não existem fórmulas no tratamento da obesidade infantil. A obesidade é complexa e a obesidade infantil mais complexa o é, na medida em que não depende exclusivamente da criança e da sua vontade. A abordagem não pode ser simplista e jamais pode actuar sem o envolvimento activo de toda a a família. Sendo uma doença multi-factorial, existem dois pontos que têm que ser investigados e debatidos com os próprio pais: a responsabilidade parental na alimentação dos filhos e o seus próprios hábitos alimentares. Apesar das devidas excepções, ambos ou um deles podem estar presentes na obesidade infantil.




A maior ou menor (des) responsabilização parental na alimentação da criança e o impacto do seu próprio exemplo


Sou confrontada com ingratas missões e nada é mais ingrato do que dizer a um pai ou uma mãe que estão a fazer algo errado. Desejamos o melhor para os nosso filhos e fazemos o que em determinado momento nos parece mais acertado. No geral é difícil aceitarmos as nossas próprias falhas, mas mais facilmente aceitamos que erramos em qualquer outro assunto, do que assumimos a nós mesmos que falhamos de algum modo enquanto pais. Quando o dedo toca num assunto tão sensível quanto os nossos filhos e quanto a nossa responsabilidade parental, é frequente reagirmos (muito!!!) negativamente. No entanto, tenho o dever profissional de ser muito clara e frontal na passagem de determinada informação.


Vivemos cansados e sem paciência e isso reflete-se na nossa capacidade em educar em todas as matérias inclusive na alimentar. Depois de um dia de trabalho, um conflito é a última coisa que um pai ou mãe deseja! Ainda enquanto bebés, muitas crianças rejeitam frequentemente a sopa, legumes no prato ou fruta. Após várias tentativas falhadas, muito choro, roupa suja e comida no chão, os pais estão demasiadamente cansados para voltar a insistir e desistem de oferecer determinados alimentos com a ideia que “um dia ele vai comer”. Sim, um dia ele pode vir a comer, mas apenas se continuar a insistir. Não é grave se a criança rejeita um ou outro alimento em específico (todos nós temos preferências alimentares!), mas se as rejeições forem múltiplas, a alimentação pode ficar muito limitada. O mesmo acontece quando são mais velhos e recusam determinado prato ou alimento. O cansaço acumulado e a aversão a conflitos podem culminar em desistência.


Há ainda crianças que simplesmente não gostam de comer, e cuja alimentação é diariamente uma luta e fruto de grande ansiedade. Os pais encontram-se frequentemente desesperados para que o filho coma qualquer coisa, mesmo que desadequado. Além de não serem instituídos bons hábitos desde da introdução alimentar, ainda correm o risco de consecutivamente substituir refeições por bolachas, biscoitos ou papas. Numa primeira fase, a tendência é desvalorizar estes hábitos, mas a longo prazo os pais podem ser confrontados uma realidade difícil: não só o filho não gosta de comer alimentos saudáveis, como só come de forma prazerosa alimentos ricos em açúcar ou gordura.


As birras em cafés e supermercados podem contribuir para que pais cansados ou pouco sensibilizados para as questões da alimentação cedam frequentemente aos desejos dos filhos sempre sob a falsa ideia de que “é só hoje”, “não é grave”, “ele nem come tantos doces assim”. Avós rebentando de afecto e desejosos de agradar também podem contribuir para o agravamento do problema.


A tudo isto pode juntar-se a falta de tempo e de planeamento. Frequentemente não há sopa ou salada e a criança não tem o hábito instituído de as comer a todas as refeições. Pode também haver ideia errada que se já comeu ao almoço na escola é suficiente. Como vivemos a correr e não tivemos tempo de ir às compras ou de cozinhar, parte das refeições é fast food ou quase (rissóis, douradinhos, panadinhos, lasanhas,…etc.). Não há hortícolas e a componente proteica do prato vem acompanhada de uma fonte de hidratos de carbono em excesso.


A criança pode ainda ter um alimentação exemplar do ponto de vista qualitativo mas a quantidade estar desadequada às suas necessidades fazendo com que ganhe peso. Por mais "alimentos saudáveis" que coma, se o fizer em excesso também vai engordar.


E depois há aquele monstro - o nosso próprio exemplo! As crianças são os nossos macaquinhos de imitação, reproduzem as nossas expressões, as nossas reacções e também os nossos hábitos. Se até determinado momento consegue que ele coma sopa “porque sim”, quando começar a crescer vai questionar-se porque o pai e a mãe não comem e nesse momento acontece a recusa. Na consulta tenho o hábito de perguntar pelas preferências da criança e pelas preferências dos pais! Quando me respondem que a criança não gosta de peixe, normalmente pergunto se o pai ou a mãe gostam. A resposta é quase sempre não.


Infelizmente há uma grande probabilidade de a tentativa de melhorar os hábitos alimentares da criança e do adolescente falhar se os pais não o acompanharem nesta mudança. Muitos pais desejam que os seus filhos percam peso e/ou melhorem os seus hábitos, mas recusam-se eles próprios a mudar.


Imagine a frustração do seu filho que após ir à consulta de nutrição clínica e iniciar o cumprimento de um plano alimentar, tem que sentar-se à mesa e comer salmão grelhado ou frango estufado e ver a restante família comer batatas fritas ou bacalhau com natas e um refrigerante. No final da refeição, ele comerá uma maçã e o irmão um gelado. Na despensa há permanentemente bolachas doces, batatas fritas e biscoitos porque o pai gosta e “não está de dieta”. Como explicar ao seu filho de 6, 8 ou 10 anos que a família pode comer coisas que lhe são vedadas? Mesmo que ele seja já um adolescente, terá maturidade para seguir este caminho sozinho?


Pode haver a tentação de atribuir aos genes ou à “natureza” a responsabilidade do excesso de peso ou obesidade da criança, principalmente se os pais também forem obesos. Devo dizer que a contribuição genética na obesidade é real mas pequena. Não podemos de modo algum atribuir à expressão genética a culpa do sedentarismo e dos maus hábitos alimentares. Na maioria dos casos, a criança é obesa não por herança genética mas porque todos comem mal.


É muito fácil para o nutricionista pesar o seu filho, fazer o plano, sorrir e dizer até breve. Difícil é dizer aos pais de forma assertiva mas empática que apesar dos inúmeros factores, a atitude parental é determinante. A desresponsabilização parental em maior ou menor grau na alimentação da criança, os efeitos da sua influência e do seu próprio exemplo não são verdades absolutas e não têm sequer que estar presentes no caso em estudo, mas têm um grande impacto.


É preciso que tenhamos claro o seguinte: uma criança ou mesmo um adolescente não tem idade, maturidade ou responsabilidade para decidir (completamente) por si. É claro que a questão da idade é muito importante, quanto mais velha e mais madura for, maior deverá ser a sua participação. Pode e deve envolve-lo na decisão deixando-o escolher entre várias opções que considere adequadas, pode explicar-lhe as vantagens e desvantagens, pode sensibiliza-lo ou influencia-lo, mas deixa-lo escolher completamente sozinho sem o filtro da parentalidade pode ser desadequado.


Se não permite que o seu filho adormeça à 1h da manhã num dia comum, se não o deixa ver televisão a determinadas horas, se não o deixa faltar às aulas, não pode permitir que coma ou não coma determinados alimentos apenas porque gosta, quer, porque faz birras, porque é cansativo contraria-lo, porque (sistematicamente) pode arranjar conflitos.


O seu filho não tem (total) poder de decisão sobre si mesmo. Não é ele que escolhe o que come porque não é ele que vai às compras, não é ele que paga, não é ele que confecciona as refeições. Da mesma maneira que não é ele que decide (sozinho) uma série de outras coisas. Ele não tem culpa que esteja exausto para cozinhar, que não tenha tempo de planear, que não tenha paciência ou equilíbrio mental para lidar com as birras, com a insubordinação, com o natural teste permanente à sua autoridade. Também não é da responsabilidade do seu filho o exemplo alimentar que lhe dá enquanto pai ou mãe e os seus próprios erros alimentares.


(É neste momento da consulta que me apetece abraçar os pais e quase pedir desculpa pelo que estou a dizer!)


Volto a frisar que tudo isto não são verdades absolutas. As generalizações são perigosas e injustas e o caso deve ser analisado isoladamente. Muitos pais lutam arduamente contra o sedentarismo dos filhos ou tentam a todo o custo que mudem progressivamente os seus hábitos fazendo o melhor que sabem ou podem num determinado momento. Não têm eles próprios que saber comer ou cozinhar. Podem cometer erros por desconhecimento ou por incapacidade em desconstruir a informação complexa com a qual são bombardeados. As escolhas alimentares são difíceis e nada lineares porque têm que ser integradas com as particularidades da própria criança, da dinâmica familiar e de todas as outras dimensões da sua educação. Há ainda a escola, os amigos, a televisão e a possível aversão ao exercício físico.


Os pais não devem de modo algum sentir-se mal ou culpados com a consciencialização da sua atitude, mas sim alavancar com novo fôlego as mudanças que dependem dos próprios na alimentação dos filhos. Se o seu filho é obeso ou tem excesso de peso, actue o quanto antes sob pena de agravar o problema. Consulte um nutricionista e ajude-o a mudar mudando com ele. Não somos ou seremos pais perfeitos mas podemos tentar fazer o melhor que consigamos. Mude a sua própria atitude, insista e não desista. Comer bem depende dele e também depende de si.





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