• Inês Tavares

Vamos falar de Álcool!


Poucos assuntos levantarão tanta polémica como o consumo de álcool. É sabido que o álcool é neuro e hepatotóxico. O principal produto de degradação do álcool, o acetaldeído, é directamente responsável pela sua acção tóxica. O consumo excessivo de álcool, além de provocar dependência, está na base de múltiplas situações de doença e ligado às principais causas de morte, nomeadamente à doença cardiovascular e oncológica, aos acidentes de viação, ao suicídio e à cirrose hepática (1).

Os efeitos do álcool estão amplamente difundidos e são conhecidos pela maioria dos indivíduos. Por simples desconhecimento ou por verdadeiro auto-engano, é a frequência recomendável de consumo e a quantidade ingerida que se revelam polémicos!

Muitas vezes em consulta, questiono a frequência e a quantidade de bebidas alcoólicas ingeridas. Frequentemente o consumo de álcool é descrito como “esporádico” e em “pouca quantidade”. Quando tendo esmiuçar estas informações, percebo que o consumo esporádico é afinal todos os fins-de-semana e que “pouca quantidade” são 5 cervejas durante a tarde e 2 ou 3 Gins à noite. Definitivamente, o consumo de qualquer bebida alcoólica aos fins-de-semana, não é esporádico e mas sim regular. Se a frequência de consumo é fonte de muitos equívocos, a quantidade revela-se igualmente controversa.

No caso do consumo descrito como “regular” pelo paciente, o vinho tinto ganha protagonismo. Um copo de vinho, independentemente do seu volume, deve ser preenchido por cerca de 165ml de vinho. Amiúde apercebo-me que “1 copo de vinho” descrito como a quantidade ingerida por refeição, são afinal 2 ou 3 copos porque a quantidade de vinho está desajustada ao recipiente. Preconizou-se que 1 unidade de bebida alcoólica tem 12g de etanol. (1,2) Assim, a quantidade de bebida é maior ou menor consoante o seu teor em álcool. Costumo gracejar que pode beber vinho em copos de água, desde que não ultrapasse os 165ml!


Fonte: Mello, M.; Barria, J.;Breda, J. Álcool e Problemas Ligados ao Álcool em Portugal. Lisboa: Direcção-Geral da Saúde, 2001.(1)


Outra ideia persistente, consiste na desvalorização do consumo regular, e por vezes excessivo, de vinho e cerveja. Há ideia generalizada que as bebidas alcoólicas mais prejudiciais são as chamadas “bebidas brancas”, como licor, gin, vodka, whisky, rum ou cachaça, pelo elevado teor alcoólico relativamente ao vinho ou à cerveja. Devo alertar que qualquer bebida alcoólica, independentemente do teor em álcool, é neuro e hepatotóxica quando consumida em grande quantidade. Naturalmente, quanto mais álcool possuir, menor é quantidade que deve ingerir. Bebidas como vinho ou cerveja por terem um teor alcoólico inferior, serão melhores opções. No entanto, deve ter bem presente que bebendo 5 cervejas ou 1 garrafa de vinho, estará a consumir tanto ou mais álcool do que o presente em um copo de uma “bebida branca” e que este consumo não é de todo inofensivo.


O que é então o teor alcoólico de uma bebida?


“A graduação alcoólica de uma bebida é definida pela percentagem volumétrica de álcool puro nela contido. Assim, por exemplo: um vinho de 10º significa que 1L contém 10% de álcool, isto é, 100 ml ou 80 gramas de álcool.”(1)


A título de exemplo, quando ingere vodka, tenha consciência que 50% ou mais do que está a beber é etanol! Sim, é mesmo metade! Mas há pior. Muitas aguardentes, whiskys, runs ou absintos ultrapassam largamente os 50º. Há uma determinada vodka no mercado com 96º (96%) de etanol!

É ainda necessário evidenciar a elevada carga energética do etanol. 1g de etanol contém 7 kcal. 1g de Proteína ou de Hidratos de Carbono contém 4 kcal e 1g de Gordura contém 9 kcal. Em termos comparativos a carga energética do etanol é muito elevada. Além do etanol, muitas bebidas têm açúcares na sua composição (sidra, vinho, licores…) e/ou são bebidas frequentemente em cocktails com outras bebidas alcoólicas e com sumos ou refrigerantes. A carga energética total é enorme! A beleza da matemática está na transparência dos números! Confira a tabela abaixo.


Tabela 1: Quantidade de álcool e energia contida em uma dose de bebida alcoólica. (3)


Aqueles 3 Gins do Sábado passado foram equivalentes em temos calóricos a um grande almoço. As 5 cervejas que está a pensar beber esta tarde, equivalem ao seu jantar! Com 2 ou 3 Caipirinhas noite dentro e 1 Vodka-laranja, ingere o equivalente a uma feijoada com direito a pudim Abade Priscos para terminar! Não esquecendo jamais a quantidade massiva de álcool que o seu fígado terá que metabolizar.

A Organização Mundial de Saúde desaconselha veemente o consumo de qualquer bebida alcoólica, mas refere que o consumo de baixo risco (do qual não resultarão problemas ligados ao álcool) são até 2 unidades de bebida por dia num homem (24g de álcool) e até 1 unidade de bebida por dia numa mulher (12g de álcool). (2) Como pode confirmar na tabela, é muito fácil exceder este valor.

Não esqueça que não deve consumir qualquer bebida alcoólica se estiver grávida ou a amamentar, conduzir ou trabalhar com máquinas, tomar medicamentos, em situação de doença e em situação de dependência alcoólica. (2)

Em jeito de conclusão, há a reter que de entre todas as bebidas alcoólicas, o vinho e a cerveja são simultaneamente as que apresentam menor teor alcoólico por dose de bebida consumida e menor carga energética total. Ainda assim, o consumo deve ser feito obrigatoriamente em pequena quantidade.


Depois do que leu, vai enterrar a cabeça na areia?




Bibliografia:

1. Mello M., Barrias J., Breda J. Álcool e Problemas Ligados ao Álcool em Portugal. Lisboa: DGS 2001.

2. Babor T., Higgins-Biddle J. Brief Intervention For Hazardous and Harmful Drinking - A Manual for use in Primary Care. WHO 2001.

3. Tabela da Composição dos Alimentos, Instituto Nacional de Saúde Dr. Ricardo Jorge. Versão on-line disponível em URL <http://portfir.insa.pt/foodcomp/compare>.


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