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Nutrição durante a terapêutica com Mounjaro, Ozempic e Wegovy: porque é essencial - Parte 1

  • Foto do escritor: Inês Tavares
    Inês Tavares
  • há 2 horas
  • 5 min de leitura

Os agonistas do recetor do GLP-1, como a semaglutida (Ozempic® e Wegovy®) e a tirzepatida (Mounjaro®), revolucionaram o tratamento da obesidade e do excesso de peso. Pela primeira vez, dispomos de medicamentos capazes de induzir perdas de peso significativas e sustentadas numa grande proporção de pessoas, com benefícios que vão muito além da balança.


Apesar da sua eficácia, continua a existir um equívoco que observo frequentemente na prática clínica.


Muitas pessoas acreditam que, se a medicação reduz a fome, a alimentação deixa de ser uma prioridade.


Na realidade, acontece exatamente o contrário. Quanto menos consegue comer, maior deve ser a qualidade da alimentação.


Os agonistas do GLP-1 ajudam a comer menos, mas não ensinam a comer melhor. Não alteram automaticamente as preferências alimentares, não corrigem hábitos construídos ao longo de anos nem garantem que o peso perdido corresponda maioritariamente a gordura corporal.


É precisamente por isso que o acompanhamento nutricional continua a desempenhar um papel central durante a terapêutica.



Mounjaro, Ozempic e Wegovy reduzem o apetite. Não ensinam a comer melhor.


Quando se inicia tratamento com Mounjaro, Ozempic ou Wegovy, a maioria das pessoas sente uma diminuição do apetite e uma sensação de saciedade mais precoce. Este efeito facilita a redução espontânea da ingestão alimentar e, consequentemente, deficit calórico e perda de peso.


Contudo, existe um aspeto frequentemente esquecido.


Os agonistas do GLP-1 reduzem a quantidade de alimentos que consegue ingerir.

Não aumentam automaticamente a qualidade da sua alimentação.


Isto significa que uma pessoa que, antes do tratamento, tinha uma alimentação desequilibrada poderá continuar a fazer escolhas semelhantes, apenas em menor quantidade.


Por exemplo:


  • Quem consumia poucos hortícolas continuará frequentemente a consumi-los em pouca quantidade;

  • Quem fazia refeições pobres em proteína poderá continuar a ingerir proteína insuficiente;

  • Quem recorria frequentemente a alimentos ultraprocessados e/ou com muita gordura continuará muitas vezes a escolhê-los.


A redução da ingestão alimentar não transforma, por si só, uma alimentação nutricionalmente pobre numa alimentação equilibrada.


Perder peso e melhorar a alimentação são objetivos diferentes. Idealmente, devem acontecer em simultâneo.



Comer menos obriga a comer melhor


Antes da terapêutica, muitas pessoas conseguiam compensar uma alimentação desequilibrada simplesmente porque ingeriam um maior volume de alimentos. Depois do início da medicação, essa margem desaparece.

Quando a capacidade para comer diminui, cada refeição passa a ter muito mais importância.


Existe menos espaço para alimentos com baixo valor nutricional e maior necessidade de privilegiar alimentos que forneçam:


  • Proteína de elevada qualidade;

  • Vitaminas e minerais;

  • Fibra alimentar;

  • Hidratos de carbono ricos complexos;

  • Gorduras de boa qualidade.


É precisamente esta reorganização alimentar que o nutricionista procura alcançar.



Perder peso não significa perder apenas gordura


Uma descida rápida do peso na balança é, geralmente, motivo de satisfação. No entanto, a balança não distingue aquilo que está realmente a ser perdido.


Durante a perda de peso podem diminuir vários componentes corporais:


  • Massa gorda;

  • Água;

  • Glicogénio;

  • Massa muscular.


O objetivo do tratamento não deve ser apenas perder peso.

Deve ser perder predominantemente gordura, preservando tanto quanto possível a massa muscular.


Duas pessoas podem perder exatamente dez quilogramas. Contudo, uma pode perder sobretudo gordura, enquanto a outra perde uma quantidade significativa de músculo.


Na balança o resultado é idêntico, mas do ponto de vista metabólico e do gasto energético, é muito diferente.



Porque é importante preservar a massa muscular durante o tratamento com Mounjaro, Ozempic ou Wegovy


A massa muscular desempenha funções muito para além da força física.

Contribui para:


  • Manter o gasto energético;

  • Melhorar a sensibilidade à insulina;

  • Facilitar a realização das atividades do dia a dia;

  • Preservar a autonomia ao longo do envelhecimento;

  • Ajudar a manter o peso perdido.


Quando a ingestão energética diminui de forma acentuada, sobretudo se existir uma ingestão insuficiente de proteína ou ausência de exercício de força, aumenta também o risco de perda de massa muscular.


Quanto maior for essa perda, maior poderá ser a redução do gasto energético diário.

Em linguagem corrente, significa que o metabolismo fica "menos gastador ou mais poupado".


É uma das razões pelas quais a manutenção dos resultados pode tornar-se mais difícil após a suspensão da medicação. Preservar a massa muscular não é apenas uma questão de desempenho físico, é uma estratégia para proteger a saúde metabólica e facilitar a manutenção do peso a longo prazo.



"Já não tenho fome, por isso não como / não preciso comer."



Não sentir fome não significa que o organismo deixe de necessitar de:


  • Proteína;

  • Micronutrientes (vitaminas e minerais);

  • Energia;

  • Fibra;


Existem pessoas que passam grande parte do dia praticamente sem comer porque simplesmente não sentem vontade ou têm muito sintomas, como náuseas persistentes.


Embora esta situação possa traduzir-se numa perda de peso rápida, também acarreta:


  • Ingestão insuficiente de proteína e consequente perda de massa muscular;

  • Défices de vitaminas e minerais (que podem inclusive ser anteriores à medicação e agravarem de forma marcada);

  • Grande sensação de fadiga, astenia e pouca concentração;

  • Grande dificuldade em ingerir o mínimo necessário à manutenção do estado nutricional.


Comer não é um capricho.

É uma necessidade fisiológica essencial à sobrevivência.


O objetivo da terapêutica não é comer o mínimo possível, mas sim reduzir a quantidade de alimentos ingeridos , induzindo deficit calórico essencial ao emagrecimento, mas preservando simultaneamente a massa muscular e um bom estado nutricional.



Como deve adaptar a alimentação ao Mounjaro, Ozempic ou Wegovy


Os agonistas do GLP-1 alteram profundamente a forma como muitas pessoas experienciam as refeições. Estratégias alimentares que anteriormente faziam sentido podem deixar de ser adequadas. Um bom exemplo é a sopa.


Recomendar a ingestão de sopa no início da refeição é uma estratégia útil para aumentar o consumo de hortícolas e promover saciedade.


Contudo, numa pessoa medicada com Mounjaro, Ozempic ou Wegovy, que apresenta saciedade muito precoce, um prato grande de sopa pode ocupar uma parte importante da capacidade gástrica disponível. Quando chega ao prato principal, já não consegue ingerir uma quantidade suficiente de alimentos ricos em proteína.


Neste contexto, uma recomendação aparentemente saudável pode tornar-se contraproducente.


A alimentação deve adaptar-se à fisiologia induzida pela medicação. Não o contrário.


Comer apenas uma fatia de pizza ou um rissol continua a não ser uma alimentação equilibrada


Outro erro frequente resulta da ideia de que basta reduzir as quantidades. Imagine uma pessoa que, antes da terapêutica, almoçava regularmente 4 fatias de pizza. Depois de iniciar o tratamento, passa a comer apenas uma pequena porção, porque não consegue comer mais. Antes comia 2 folhados e 1 croquete no bar da empresa e agora só consegue comer 1 rissol.


É uma melhoria? Do ponto de vista da quantidade, sim. Do ponto de vista nutricional, não.


A refeições podem continuar a apresentar:


  • Elevada densidade energética;

  • Excesso de gordura e/ou de hidratos de carbono e/ou açúcares;

  • Baixo teor de fibra;

  • Pobreza nutricional em micronutrientes.


Além disso, os alimentos muito gordos tendem a retardar o esvaziamento gástrico, podendo agravar sintomas como enfartamento, náuseas ou desconforto gastrointestinal, já frequentes durante a terapêutica.


Perder peso melhora muitos indicadores de saúde. Mas a qualidade da alimentação tem benefícios próprios, independentes da perda de peso. 


É essa riqueza nutricional — fibra, vitaminas, minerais e compostos bioativos presentes em padrões alimentares como a Dieta Mediterrânica — que contribui para a prevenção de doenças cardiovasculares, de alguns tipos de cancro e de muitas doenças crónicas.



Continuar a ler a Parte 2: Porque algumas pessoas emagrecem muito menos do que esperavam? Erros alimentares Frequentes e Sintomas Gastrointestinais



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