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Nutrição durante a terapêutica com Mounjaro, Ozempic e Wegovy: desafios, erros e como otimizar os resultados - Parte 2

  • Foto do escritor: Inês Tavares
    Inês Tavares
  • há 1 dia
  • 6 min de leitura

Atualizado: há 6 horas


Na primeira parte deste artigo (Nutrição durante a terapêutica com Mounjaro, Ozempic e Wegovy: porque é essencial - Parte 1) expliquei como deve ser a alimentação durante o tratamento com Mounjaro®, Ozempic® e Wegovy®, abordando a importância da proteína, da fibra, da hidratação e da qualidade global da alimentação.


No entanto, surgem frequentemente novas dúvidas. Porque é que algumas pessoas emagrecem muito menos do que esperavam? Quais são os erros alimentares que podem comprometer os resultados? Na prática, o que devo comer?


Nesta segunda parte, explico os fatores que mais frequentemente limitam a perda de peso durante a terapêutica com agonistas do GLP-1 e como a alimentação continua a desempenhar um papel determinante para o sucesso do tratamento.


Os agonistas do GLP-1 ajudam a comer menos, mas não ensinam a comer melhor. Não alteram automaticamente as preferências alimentares, não corrigem hábitos construídos ao longo de anos, nem garantem que o peso perdido corresponda maioritariamente a gordura corporal.



Porque algumas pessoas emagrecem muito menos do que esperavam com Mounjaro®, Ozempic® e Wegovy®


Uma das maiores fontes de frustração durante a terapêutica com Mounjaro®, Ozempic® e Wegovy® surge quando a perda de peso é muito inferior ao esperado. É frequente comparar os próprios resultados com aqueles que se veem nas redes sociais ou que outras pessoas relatam.


No entanto, nem todas as pessoas respondem da mesma forma ao tratamento. A resposta aos agonistas do GLP-1 é influenciada por vários fatores, incluindo:


  • A dose utilizada;

  • A adesão à terapêutica;

  • O peso inicial;

  • A composição corporal;

  • O nível de atividade física;

  • Fatores biológicos individuais;

  • E, naturalmente, a alimentação individual.


Além disso, nem todas as pessoas desenvolvem uma redução marcada do apetite. Algumas referem apenas uma ligeira diminuição da fome.


Com ou sem medicação, só emagrecemos em déficit calórico. No entanto, a redução da ingestão alimentar causada pela medicação pode não ser suficiente para criar um défice energético significativo e perder peso.


Comer menos nem sempre significa ingerir menos energia


Esta ideia é desconhecida por muitas pessoas e, por vezes, é difícil de explicar. Nem todos os alimentos fornecem a mesma quantidade de energia. Alguns concentram muitas calorias em pequenas porções.


Outros fornecem poucas calorias apesar de ocuparem um volume muito superior. É aquilo que designamos por densidade energética.


Imagine duas refeições de tamanho semelhante.


1) Pizza + Refrigerante + Sobremesa.

ou

2) Peixe ou carne magra + legumes + arroz em quantidade adequada + fruta.


Embora possam ocupar um volume semelhante no prato, a primeira fornece muito mais energia. Por isso, reduzir apenas a quantidade ingerida nem sempre é suficiente.



Uma pessoa pode passar de uma pizza inteira para meia pizza e, ainda assim, manter uma ingestão energética relativamente elevada.


Este é obviamente um exemplo limite. Pode estar a pensar que não come fast food e mesmo assim perdeu pouco peso. Faça uma questão a si mesmo: Mudei alguma coisa no meu padrão alimentar? Ou como os mesmos alimentos mas em menor quantidade?


Antes de responder, permita-me acrescentar que desvalorizamos os conteúdo energético dos alimentos, principalmente se forem saudáveis. O exemplo clássico é, nada mais nada menos, o azeite ou alimentos com "gorduras saudáveis" como nozes, abacate, sementes ou creme de amendoim.


Apesar do seu interesse nutricional, ou seja, apesar de serem saudáveis, concentram muitas calorias mesmo em pequenas porções. Isto significa que os "bons alimentos" também precisam ser quantificados porque "pesam" no total de energia ingerido por dia.


Os motivos podem ser variados e, em rigor, é necessário analisar a ingestão para perceber que alimentos contribuem mais para que o déficit energético não seja o suficiente para emagrecer de forma expressiva.


Nem sempre aumentar a dose resolve o problema


Perante uma perda de peso inferior ao esperado, existe frequentemente a tentação de atribuir a responsabilidade à medicação. Contudo, antes de concluir que o tratamento é pouco eficaz, importa compreender o que está realmente a acontecer.


Se a alimentação continuar a ser muito rica em alimentos de elevada densidade energética, sejam ou não saudáveis, aumentar sucessivamente a dose poderá produzir apenas benefícios limitados.


Por outro lado, poderá aumentar o risco de efeitos adversos gastrointestinais, como muitas náuseas e saciedade excessiva, e consequente incapacidade de comer, de todo.


Em muitos casos, alterações na composição das refeições têm um impacto superior ao simples aumento da dose.


Na prática clínica, a resposta insuficiente ao tratamento deve-se, na maioria das vezes, não à medicação, mas à qualidade alimentar.

A medicação reduz o apetite. A alimentação determina os resultados.



Os erros alimentares mais frequentes durante a terapêutica com Mounjaro®, Ozempic® e Wegovy®


Cada pessoa apresenta dificuldades diferentes. Ainda assim, existem alguns erros que surgem repetidamente durante o acompanhamento nutricional.


1. Passar muitas horas sem comer


"Não como porque não tenho fome."


Embora a ausência de fome seja um efeito esperado da medicação, pode ser excessivo e não significa que o organismo deixe de necessitar de nutrientes.


Quando a ingestão alimentar se torna demasiado reduzida, aumenta o risco de:


  • Ingestão insuficiente de proteína;

  • Perda de massa muscular;

  • Défices nutricionais variados;

  • Fadiga;

  • Maior dificuldade na recuperação após exercício.


O objetivo não é comer porque "é hora de comer". É garantir que, ao longo do dia, são atingidas as necessidades nutricionais individuais.


2. Não ingerir proteína suficiente


Quando a quantidade total de alimentos diminui, a ingestão de proteína diminui frequentemente de forma proporcional.


A proteína desempenha um papel fundamental durante a perda de peso porque contribui para:

  • Preservar a massa muscular;

  • Aumentar a saciedade;

  • Facilitar a recuperação muscular;

  • Manter a funcionalidade e a força muscular.


O plano alimentar deve assegurar que existe proteína suficiente em cada refeição, mesmo quando o apetite é reduzido.


3. Continuar a escolher os mesmos alimentos



Como referido anteriormente, muitas pessoas alteram apenas a quantidade mas não alteram as escolhas alimentares.


Se antes consumiam frequentemente alimentos ultra processados, continuam a fazê-lo.


Se antes faziam refeições pobres em hortícolas ou fruta, continuam a excluir este alimentos.


A medicação não modifica automaticamente estes padrões e não melhora, por si só, a alimentação.


4. Evitar alimentos importantes por receio das náuseas


As náuseas e a saciedade excessiva são dos efeitos adversos mais frequentes durante as primeiras fases da terapêutica. Perante este desconforto, algumas pessoas acabam por restringir progressivamente a alimentação.


Podem evitar determinados alimentos ou deixam mesmo de os consumir, com potencial dano nutricional.


Sem acompanhamento adequado, este processo pode conduzir a uma alimentação cada vez mais limitada e nutricionalmente pobre.


Na maioria das situações, a solução não passa por comer cada vez menos, mas por adaptar a alimentação aos sintomas.


Náuseas, enfartamento e obstipação: a alimentação pode fazer a diferença



Os sintomas gastrointestinais fazem parte da experiência de muitas pessoas durante a terapêutica com agonistas do GLP-1. Entre os mais frequentes encontram-se:


  • Náuseas;

  • Saciedade precoce;

  • Enfartamento;

  • Obstipação ou diarreia;

  • Refluxo ou vómitos.


Na maioria das situações, estes sintomas podem ser atenuados através de adaptações alimentares. Entre elas:


1) Preferir refeições mais pequenas e mais frequentes;

2) Mastigar lentamente e aumentar o tempo destinado a uma refeição;

3) Evitar refeições muito ricas em gordura;

4) Distribuir a ingestão proteica ao longo do dia;

5) Assegurar uma hidratação adequada;

6) Adaptar o consumo de fibra à tolerância individual.

7) Fazer alterações de consistência.

8) Prescrever suplementação se necessário.


Não existe um plano alimentar universal. As recomendações devem ser ajustadas à resposta clínica de cada pessoa após uma análise cuidada dos antecedentes, necessidades e hábitos individuais.


O essencial a reter


Os agonistas do GLP-1 representam um dos maiores avanços no tratamento da obesidade e da diabetes tipo 2. No entanto, a medicação, por si só, não substitui uma alimentação adequada.


A perda de peso e a melhoria da saúde dependem da combinação entre a terapêutica farmacológica, a alimentação, a atividade física e a adoção de hábitos sustentáveis a longo prazo. É esta abordagem integrada que permite maximizar os benefícios do tratamento, preservar a massa muscular, reduzir os efeitos adversos e aumentar a probabilidade de manter os resultados a longo prazo.


Por isso, mais do que perguntar "qual é a melhor medicação?", importa também perguntar: "estou a dar ao meu organismo as condições necessárias para que esta medicação possa atingir todo o seu potencial?"


É precisamente aí que o acompanhamento nutricional faz a diferença.


✔️ Comer menos nem sempre significa ingerir menos calorias.


✔️ A proteína continua a ser essencial.


✔️ O plano alimentar deve adaptar-se aos sintomas.


✔️ Nem sempre aumentar a dose resolve o problema.


✔️ O acompanhamento nutricional ajuda a maximizar a perda de peso.




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